Depois de discutir a "relação" ou a falta dela, cada um foi para o seu lado. O moço, cujo estado emocional era similar ao de um infortúnio ser, se dirigiu até sua residência. Chegando lá caminhou cabisbaixo até o aparelho de som, localizado no centro da sala, inseriu um disco do Chico Buarque na vitrola e se desfez durante os 47 minutos e 13 segundos que durou a melodia.
Para ele o disco era uníssono e o som o fez desfalecer em prantos ao lado de um saboroso e gelado copo de cerveja.
Enquanto isso, a moça, que tomou o rumo contrário ao dele, resolveu encontrar a tertúlia para botar o papo em dia e se divertir ao redor de uma mesa de sinuca, localizada em algum boteco escuro num canto da cidade. No meio do deleite, regado a muito caldo de cevada e sucessivas hitórias, a moça do esmalte vermelho indagava os mistérios da raça masculina. Cada tacada uma pergunta. E as perguntas e as derrotas se confundiam na cabeça dos rapazes e tomavam proporções maiores, trazendo à tona questionamentos, indagações e vez em quando a discórdia.
A situação era perfeita - viera com sede de vitória e fome de saber. São 3 que a acompanham na jogatina suburbana. De fora, observava como perdiam o foco. Como um felino em sua caça, se deixavam levar pela presa mais próxima, que não necessariamente era a mais fácil - e na maioria das vezes não era mesmo. A amarela. Agora não, a roxa. Não não, melhor a verde. E foi assim durante a noite inteira. As roupas sujas de giz, a fumaça que entorpecia o ambiente engolida pela luz baixa e pendular, o suor da garrafa imitando o orvalho naquele tapete estendido liso e verde pela madrugada a fora, gargalhadas... O telefone toca. Todos param. Não, não era quem esperavam. E foi nesse momento que o amigo lançou a frase sacralizada, fruto do encontro dos dois protagonistas da história - "Não era à toa que ela estava acertando todas hoje...". E a patota caiu no choro de tanto rir...
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